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                          RELENTO

 

  A lua hoje desceu mais cedo, veio no meio da tarde. Estava com insônia, e deixou-me esta. Vou até o quintal de madrugada. Deito-me no cimento, entre os matos e flores selvagens fedidas. Não há luzes, não há animais que me ameacem, antes, me observam e igualmente anunciam nossa oração madrigal. A essas horas, a lua já se foi e ficaram-me as estrelas distantes.

  Lembro-me dos meus tempos baianos onde as via quinhentos metros mais de perto. Eu era quase ainda criança, e estava mesmo mais perto do céu. Foi num tempo em que o vento forte trazia medo junto com seus cheiros de noite. Trazia meus pensamentos e sempre preferi fugi-los. Mas a imensidão hoje me engrandece. Seu silêncio me fascina. As estrelas, aqui mais distantes, estão esquecidas como se há muito ninguém as olhasse.

  Marte logo vem. E cada um desses pontos sem nome é ainda partícipe de uma miríade fantástica, e a luz que emanam, sei que consegue chegar a mim.

  Preciso da noite. Dependo do mar e dos seus ventos de alegria ou solidão. E por causa desta, nunca esqueço-me. Aceito minha condição...Sou o que quero e preciso, mas ninguém se agrada disso: não há retratos. E sempre mancharei as aquarelas certas sobre mim.  Porque gosto demais de rir, porque sempre vou fugir de vez em quando me levando, tentando sem cansar persistir nas coisas que vejo a mais, e só me tratam para que eu  as esqueça.

  Na minha mais tenra infância, calavam-me as perguntas chateantes e insistentes com o assombro de um Deus que me castigaria por tentar entendê-lo, por desafiar seus mistérios, por não entender injustiça e dor. Meu cérebro lhes dá orgulhos e meu coração, vexames.

  Ah, minhas estrelas, o mundo acá é tão complexo. Tem se tornado uma bagunça, na verdade, desde que o trouxa do Adão caiu nas garras de Eva e comeu-lhe o danado do proibido, sem o qual eu não estaria aqui hoje. O fato é que desde esse dia pagamos por aquele mesmo erro que cometemos, com muito gosto até, e isso nem de longe nos condenaria. Fomos indesejados desde o princípio. E os macaquinhos? Ora, tenha humildade suficiente para assumir que você se parece com um.

  A manhã já vem. Ah, a mim, Lua, o Sol não deixa em paz. Estamos sempre em órbita circular ao redor do planeta, num eterno: eu fujo, ele me caça. E nunca me alcançará devido a um incompatível fuso que nos mantém juntos, quanto brutalmente diferentes.

  Mas amanhecerá. Vou ficando... As paredes não me cabem, coisa mais tosca.  Vagante. Tudo que consigo é despertar a curiosidade de uns, o desprezo de outros. E o tédio em mim.

  De meu cérebro, desisto: é fadado. Envelhecerei sempre anos em dias e às vezes precisarei ler algum prólogo para tornar ao raciocínio objetivo, para que as palavras repitam: você está bem, não se preocupe, estamos com você. Quanto ao meu coração agressivo, segue sangrando de quando em vez: tem desistido de mostrar o que sente.

  Afinal, dizem, o que me falta na vida é casa, carro, dinheiro e tals, esses reais objetivos do nascer... Que feliz eu seria se tudo o mais me completasse.

  Riem-se de mim, que acredito em sonhos. Bobos vocês, que acreditam no dinheiro.



Escrito por **LeggionariA LunA** às 08h59
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